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Sporting Olympics - Rio 2016 - Tóquio 2020

Jorge Fonseca

  • 27 Anos Judo
  • Data de nascimento 30 outubro 1992 175 cm | 100 kg
  • País Portugal

Está aqui

Biografia
Jorge Ivayr Rodrigues da Fonseca

Quando foi competir a Taiwan, Jorge Fonseca talvez tenha sido alvo da mesma reacção que os portugueses receberam em 1582. 432 anos depois, foi a visita de um atleta de pele negra que provocou a curiosidade nas gentes insulares. “Aprendi muitas coisas em Taipé (Taiwan), onde fui tratado como um rei. Despertava muito interesse da população por ser de pele negra, algo raro naquele lado do globo. Quando ia ao supermercado havia sempre muita confusão em meu redor, com todos a tentarem tocar-me. Nos últimos dias acabei por pedir a outros atletas para comprarem o que precisava para evitar tanta gente à minha volta. Por um lado é divertido e aprendi com isso, é bom termos a noção que nem todos os países têm pessoas com cor de pele distinta. Antes de chegar pensava que fossem mais próximos do pensamento racista, por não verem muitas pessoas de pele negra, mas tiveram uma reacção contrária, foram benévolos. Fiquei surpreendido até porque não sou um atleta muito reconhecido no judo internacional, por enquanto”, explicou, afirmando também que o primeiro lugar alcançado excedeu as suas expectativas. “Foi um excelente resultado, não estava à espera até porque estava presente o actual campeão olímpico. Estive muito desconcentrado no início, mas acabei a competição da melhor maneira”, completou.

Para além de Taipé, Jorge Fonseca participou, através da comitiva nacional, num Grande Prémio em Ulan Bator (Mongólia), realizando depois um estágio no Japão durante pouco menos de um mês. Nestes dois países, Jorge Fonseca também passou por situações que jamais imaginaria. “O Japão é um país muito rigoroso, com muitas regras. Durante o estágio fomos detidos pela polícia só porque passámos a estrada quando o sinal dos peões estava fechado. Aproximou-se de imediato um carro da polícia que estava no trânsito, levando-nos para a esquadra de uma forma tão dedicada que parecíamos assassinos – inclusivamente fomos escoltados por outros dois carros. Permanecemos lá durante cinco horas, sem que algum japonês soubesse falar inglês. Acabaram por ceder, libertando-nos sem qualquer caução associada. Na Mongólia a experiência foi muito idêntica à de Taipé. Novamente devido à ausência de pessoas da minha cor naquele país, olhavam para mim como se fosse um diamante raro (risos). Acabou por ser cansativo porque estavam sempre a tocar-me para ver se era mesmo a minha pele ou se estava pintado e também me puxavam o pouco cabelo que tenho para ver se era mesmo meu. Procedi de igual modo que em Taipé, comecei a evitar sair à rua. Mas, exageros à parte, as pessoas trataram-me muito bem, acarinharam-me imenso”, complementou o judoca ‘verde e branco’ ao Jornal Sporting.

Jorge Fonseca começou a praticar judo aos 14 anos e, dois anos depois, ingressou no Sporting, Clube onde muito aprendeu, nomeadamente por intermédio do ex-atleta, João Pina, e do seu técnico, Pedro Soares. “O João Pina passou-me muita experiência, algo que não tinha quando cheguei ao Sporting. Deu-me uma noção bem diferente do judo, ensinando-me coisas que nunca pensei aprender. Quanto ao Pedro Soares, é o elemento mais importante para a minha carreira de judoca. Foi ele que me abriu as portas para o judo. Sem ele, não era ninguém”. Dois históricos judocas que fizeram grandes prestações pelo Sporting e pela Selecção Nacional, sendo um objectivo de Jorge Fonseca ser melhor que os seus antecessores. “Quero ter a medalha que eles não tiveram: a dos Jogos Olímpicos. Foram grandes atletas e fizeram grandes resultados, mas estou a trabalhar para ser superior”, destacou.

Fora do tapete, Jorge Fonseca continua a estudar num Colégio, estando em perspectiva a entrada na Universidade, ainda que o judo esteja sempre em primeiro lugar. O facto de estar muitas vezes fora do país impossibilita-o de acompanhar as matérias necessárias para um futuro polícia. “Quando terminar a carreira de judoca quero ser polícia, profissão com que sempre sonhei, mesmo perante a discordância dos meus pais”. À excepção das tarefas escolares, o atleta ‘leonino’ divide o seu tempo entre o descanso e o treino, sendo o último parcelado entre ginásio adequado e combate”. Não posso fazer muito ginásio senão ultrapassarei o peso permitido. A musculação prende-nos muito. Queremos ser judocas e não culturistas, com técnica e força explosiva. Prefiro trabalhar musculação adequadada ao judo, pois é mais benéfico ter uma boa técnica a um bom físico”, frisou o campeão da Europa de Sub-23, uma prova onde venceu todos os combates por ippon, não deixando dúvidas quanto ao facto de ser o atleta mais forte. “Não esperava vencer todos os confrontos por ippon, até porque não conhecia alguns dos atletas que defrontei, mas estava bem preparado e muito apoiado pelo treinador. Entrei com um objectivo na competição e cumpri”.

No judo, devido à importância do peso, a alimentação tem um papel fundamental, ainda que, no caso de Jorge Fonseca, esta não sofra grandes alterações. Faz três refeições por dia e ao jantar bebe apenas um batido. E o que dizer do judo pela terra dos descobridores? “Acho que a Federação não divulga muito o judo português. Nunca levaram a Telma Monteiro, o João Pina ou a Joana Ramos a uma escola para fazerem mais propaganda à modalidade. Deveriam aproveitar os atletas de renome que representam ou representaram a Selecção”, avançou, reconhecendo também as alterações que o judo provocou na sua vida: “O judo ensinou-me a ser homem, coisa que não era. Não era uma pessoa humilde, gostava muito de ir pela via da agressão. Quando entrei na modalidade comecei a respeitar as pessoas e a controlar a minha ansiedade. Também me fez lutar por objectivos”. Para Jorge Fonseca, o judo português não se fica muito atrás das grandes potências europeias e para isso muito contribuiu a experiência internacional. “Na Rússia, por exemplo, facilmente realizam um estágio de 100 atletas, algo impensável em Portugal. Por outro lado, a nossa escassez de meios acabou por obrigar-nos a competir no estrangeiro mais vezes, proporcionando-nos um bom nível de judo e um conhecimento maior dos nossos adversários nas grandes competições internacionais”.

O judoca Jorge Fonseca não nasceu torto mas apareceu tarde. Ainda assim, e ao contrário do que diz o ditado, a tempo de ‘endireitar-se’ para construir uma carreira marcante e ser um exemplo para todos. O atleta ‘leonino’ foi o protagonista do último episódio do programa ‘Nomes que brilham’, da Sporting TV, e explicou um pouco do seu percurso. “Cheguei a Portugal com 11 anos com a minha mãe, que procurava melhores condições de vida. No início não foi fácil porque, ao contrário do que acontecia em África, passava muito tempo em casa e falava mal português. Tive ajuda dos professores e dos amigos que fui fazendo na escola para melhorar e a partir daí tudo se tornou mais fácil. Comecei depois no judo em 2007. O meu treinador, Pedro Soares, dava aulas na Damaia e fui vendo pela janela. Gostei, ele convidou-me para treinar, perguntei à minha mãe e fiquei na modalidade”, explica o judoca ‘verde e branco’, que demorou pouco tempo a vingar apesar de estar em ‘desvantagem’ com quase todos os adversários. “Em 2010 ganhei o Campeonato Nacional de juniores. Sabia que não era muito bom porque, ao começar tarde, não tinha tantas bases como os outros. Acabei por adaptar-me melhor à categoria de -100kg. No ano seguinte comecei a fazer provas internacionais e a habituar-me a outros estilos diferentes de judo”, salienta, sem que com isso tenha vontade de ir treinar para fora: “Quando estava na Damaia, o meu objectivo era ser mais forte; quando cheguei ao Sporting, quis ser ainda mais forte do que era. Tenho a ambição de ser alguém no judo e tentar ser melhor do que o meu treinador foi quando era atleta. Neste Clube passei a ter mais condições de treino e um grupo unido, com mais atletas para trabalhar. Tenho também o meu treinador cá, que é tudo para mim, por isso estou muito bem”.

Em 2013, após novo título nacional e dois pódios em competições internacionais (Glasgow e Bucareste), Jorge Fonseca tornou-se o primeiro português a ganhar o Campeonato da Europa de Sub--23, realizado na cidade búlgara de Samokov, naquela que foi a cereja no topo de um bolo que demorou, e muito, a ser confeccionado. “Por não ter tantas bases como os outros judocas, tive de trabalhar muito e adaptar o meu estilo da forma como o meu treinador considerou ser a melhor. Como nos princípios básicos da modalidade, procurava o ‘mínimo esforço, máxima eficiência’. É assim que os mais fracos vencem os mais fortes, apesar de nunca me ter sentido mais fraco do que qualquer um dos adversários que defrontei. Ainda hoje é assim, tento sempre lutar de igual para igual e a única diferença é que têm mais experiência adquirida do que eu”, frisa, acrescentando: “No judo tudo pode acontecer, qualquer que seja o cinturão dos atletas em jogo. Já ganhei e já perdi em cinco ou seis segundos, por exemplo. É bom sentir o reconhecimento das pessoas e o apoio nas bancadas, fico até um pouco vaidoso, mas isso também pode desconcentrar. Por isso, quando estou no ‘tatami’, só existo eu, o meu treinador e o meu adversário. Devemos manter sempre a mesma humildade porque é fácil, ou neste caso é mais fácil, ganhar; complicado é manter o mesmo nível e ficar no topo”.

Reforçando o objectivo de ser polícia depois de terminar a carreira, como já tinha referido ao Jornal Sporting – “pela maneira de ser e pela minha postura, gostava de ajudar as pessoas boas e prender as que se portam mal”, disse –, Jorge Fonseca detalhou também a importância do judo e de ter sido pai aos 18 anos para a construção do ‘bom gigante’ que inspira hoje todos os outros. “O judo é uma modalidade que tem muito a ver com disciplina e respeito pelo adversário. A modalidade ensinou-me muito e moldou a minha própria pessoa. Essa humildade e capacidade de trabalho é uma ajuda grande para a vida. O judo não é violento, sabemos controlar a força melhor até do que os outros. Aliás, nunca tive conflitos nem nunca lutei com ninguém”, referiu, completando: “Se tenho um lado pedagógico? Sim, um bocado. Quando tive um filho comecei a ver tudo de uma forma diferente, na medida em que tenho de dar o exemplo. Ser pai mudou a minha vida e a minha maneira de ser. Obrigou-me a crescer mais rápido, a assumir maiores responsabilidades. Tornei-me um homem. Estava numa de não me preocupar muito com as coisas mas tudo isso mudou. Tenho o objectivo de mostrar ao meu filho que sou alguém para que se possa sentir orgulhoso. Se gostava que fosse judoca? Sim... e que fosse melhor do que eu”.

“Os pódios e as vitórias são viciantes, ouvir o hino é uma sensação do outro mundo”, conclui Jorge Fonseca, que além dos vários títulos internacionais já se sagrou tricampeão nacional pelo Sporting e ganhou o bronze na Liga dos Campeões.

Clubes anteriores
2008 Associação Amigos da Damaia
2009- Sporting CP
Prémios

2013

- Vencedor do Prémio Stromp 2013 para a categoria de melhor atleta do ano

- 1.º lugar no Campeonato Nacional de Seniores

- 1.º lugar no Torneio Federação Portuguesa de Judo

- 1.º lugar no Campeonato Nacional Sub-23

- 1.º lugar no Campeonato da Europa Sub-23 em Samokov, Bulgária

- 3.º lugar no Open Europeu de Glasgow, Escócia

- 3.º lugar no Open Europeu de Bucareste, Roménia

- 5.º lugar no Grand Prix de Rijeka, Escócia

- 7.º lugar no Campeonato do Mundo de Seniores no Rio de Janeiro, Brasil

2012

- 1.º lugar no Campeonato Nacional de Seniores

- 1.º lugar no Torneio Federação Portuguesa de Judo

- 1.º lugar no Open da Suíça, em Genebra

- 1.º lugar no Campeonato Nacional Sub-23

2011

- 1.º lugar no Campeonato Nacional de Seniores

- 1.º lugar no Torneio Internacional Kiyoshi Kobayashi

- 1.º lugar no Torneio Federação Portuguesa de Judo

- 2.º lugar na Taça da Europa de Juniores em Coimbra

- 5.º lugar na Taça da Europa de Juniores em Paks, Hungria

- 5.º lugar no Campeonato da Europa de Juniores em Lommel, Bélgica

2010

- 1.º lugar no Campeonato Nacional de Juniores (+90kg)

- 2.º lugar no Campeonato Nacional de Seniores (+100kg)

- 2.º lugar no Torneio Internacional Kiyoshi Kobayashi (+100kg)

- 3.º lugar no Torneio Federação Portuguesa de Judo (+90kg)