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Foto Xavier Costa

Londres, berço do futebol e casa de bem mais do que Three Lions

Por Sporting CP
14 Abr, 2026

Um roteiro alternativo pela capital inglesa

London calling”, outra vez. Londres, cidade global, é a nova paragem da aventura europeia do Sporting CP na UEFA Champions League. A vibrante e cosmopolita capital inglesa cintila, na parte Sul da Grã-Bretanha, como o centro cultural e económico de todo o Reino Unido e estende-se como uma das maiores e mais antigas metrópoles do continente, casa para cerca de nove milhões de habitantes, segundo os últimos Censos (2021), e provavelmente mais, actualmente.

E é historicamente casa, também, do futebol, porque se Inglaterra é tida como o país fundador do desporto-rei como o conhecemos, Londres foi o berço Real e tem-se mantido, para lá disso, como uma das suas capitais. Aqui foram lançadas as regras-base do futebol moderno, aqui estão sediados um sem fim de clubes recheados de História – sete competem na principal liga, número sem paralelo na Europa – e, aqui, também, qual ‘jóia da coroa’, tem morada o emblemático e colossal estádio de Wembley. Intitulado the home of football, tem lugares para 90 mil espectadores e é o habitat da decana selecção inglesa, denominada por The Three Lions. Uma simbologia e heráldica que partilha com a Coroa, isto é, com a Família Real Britânica. Os leões constam do brasão de armas Real desde o longínquo século XII, são o emblema futebolístico inglês e da sua federação desde o início - sete séculos depois - e, por tudo isso, em Londres os leões estão um pouco por toda a parte.

Pela sua gigantesca dimensão e faces diversas, haveria mil e uma formas de conhecer a capital inglesa, de si já tão turística e célebre, não tivesse sido, por exemplo, a terceira cidade mais visitada do mundo em 2025 (22,7 milhões de visitantes, segundo os dados de chegadas internacionais do Euromonitor International). Então, impelidos pela importante deslocação europeia do Sporting CP, porque não percorrer Londres no rasto dos seus inúmeros leões, emblema que Inglaterra, Londres e o futebol inglês têm em comum com o Sporting CP enquanto principal símbolo representativo? Dos imponentes, mais conhecidos e fotografados aos que escapam ao olhar menos atento, cada um com a sua história para ajudar a contar a História maiúscula da cidade. Londres num rugido, long story short.

E muito antes de ser erigida a Tower Bridge, no seu sopé na margem Norte já se ouviam rugidos… de leões de verdade. Aqui, levantou-se - e perdura - a Tower of London, iniciada em 1078 e que ao longo dos séculos foi castelo, fortaleza, arsenal, prisão, ‘cofre’ das jóias da Coroa, residência Real e acolheu, ainda, um extravagante e antiquíssimo zoo – o primeiro da cidade. Durante 600 anos, entre o século XIII e 1834, a monarquia britânica expôs nas imediações das fortificações os inúmeros animais que recebiam como oferendas exóticas e, entre outros, há registos de elefantes, águias, pumas, até um urso polar e, claro, leões.

Actualmente, The Royal Menagerie, como ficou conhecido este particular zoo, ainda tem 13 animais, mas são todos feitos de arame, estátuas da autoria da artista Kendra Haste que desde 2010 estão dispostas nos devidos lugares antanho ocupados por esta fauna Real. Esta é uma, apenas, das variadíssimas colecções e áreas visitáveis deste notável edificado, mas os leões estão bem à vista nas suas imediações para quem vem das margens do rio Tamisa.

Cerca de três décadas depois de a Tower of London ter cedido essa função - e os animais - ao London Zoo, em 1863 a capital inglesa abriu a primeira linha ferroviária subterrânea do mundo. Além de ser um dos mais antigos, The London Underground (ou The Tube) é também um dos mais extensos. Com 402 quilómetros, 11 linhas e 272 estações, quando o tempo urge - ou ruge, neste caso - é certamente uma das melhores opções.

Assim, percorridas menos de duas milhas (quase três quilómetros) para Oeste, mas ainda bem junto ao rio, avistam-se, quer no Victoria Embankment, quer no The Queen’s Walk - embora algo escondidas do olhar -, longas filas de cabeças de leão em bronze, incrustadas na parede e com um anel entre dentes para amarrar embarcações. Além disso, todas estão bem acima da linha de água, e ainda bem.

"When the lions drink, London will sink. When it's up to their manes, we'll go down the drains", reza a lenda vitoriana, algo assim como: “Quando os leões bebem, Londres vai afundar. Quando [a água] lhes sobe à juba, iremos pelo cano”. Remontam a 1868 e serviram como precioso indicador de inundações para os transeuntes, antes de que a tecnologia avançasse para controlar o caudal do rio de formas bem mais eficientes – a moderna e faraónica barragem a jusante é, desde os anos 1980, o melhor exemplo.

Quanto aos leões, continuam como vistosos elementos decorativos à beira-rio, numa zona tantas vezes ‘postal’ da cidade, mas não são os únicos, basta atravessar a Wesminster Bridge para a margem Sul. Mesmo com a concorrência do London Eye, como pano fundo de um lado e, do outro, o Big Ben e o Palácio de Westminster no horizonte, um sumptuoso leão polido - com 3,7 metros de altura, quatro de comprimento e cerca de 14 toneladas - acapara também as atenções da multidão que entra e sai da ponte. O gigante felino encara-a de frente, mas de cima do seu pedestal.

É feito de Coade stone, uma mistura de materiais popular em Inglaterra no século XIX que forma a impoluta e durável pedra artificial que tem mantido este leão imune à humidade da chuvosa - hoje soalheira - capital inglesa, à sua poluição e até ao inexorável avançar dos anos. Mesmo sem se poder mexer, já correu diferentes pontos de Londres e resistiu a um passado repleto de episódios turbulentos.

Em 1837, o escultor William Frederick Woodington concebeu-o como elemento central no topo de uma fábrica de cerveja (Lion Brewery) localizada a menos de um quilómetro a Norte da sua actual localização. Aqui, mora desde 1966. Pelo meio, no entanto, sobreviveu a um incêndio na fábrica (em 1931) e à destruição posterior e mais devastadora trazida pela II Guerra Mundial e, por vontade Real (George VI), resistiu à demolição da zona para dar lugar ao Royal Festival Hall e, brevemente, ainda esteve exposto na entrada da estação de Waterloo. Nos últimos 60 anos, bem mais sossegados, fez deste lado ponte o seu habitat natural, tendo do outro lado ‘vizinhos’ ilustres como Isaac Newton, Charles Dickens ou Stephen Hawking, todos sepultados na Westminster Abbey (abadia).

Já junto ao icónico edifício neogótico, por Whitehall vai-se à Trafalgar Square, provavelmente a mais famosa das praças londrinas e, nela, os leões mais conhecidos da cidade e, talvez, os maiores. De bronze e de um realismo impressionante nos detalhes, os quatro imponentes felinos estão distribuídos em redor da base e guardam a Nelson’s Column. Estes ‘quadrigémeos’ aqui estão desde que foram esculpidos em 1860 por Sir Edwin Landseer, deitados e de boca aberta, mas não servem de ameaça para o batalhão de pombas sempre a esvoaçar, nem para os mais intrépidos visitantes, aos quais só o sinal ali posto impede que se juntem aos leões no pedestal para uma fotografia proibida.

Trafalgar Square relembra-nos, ainda, que Londres é também cidade de inúmeros museus, alguns dos mais relevantes a nível mundial e, na ponta oposta à Nelson’s Column, situa-se a National Gallery. Nas suas salas, a vasta colecção britânica de obras de arte europeias e entre Van Gogh, da Vinci, Vermeer ou Rubens não destoaria, dizemos nós, aquele golo europeu de Pedro Gonçalves marcado ao Arsenal FC.

É o momento de voltar ao futebol, mas ainda no rasto dos leões londrinos, os últimos e agora tão pequenos que só não escapam aos mais atentos: são três, os reconhecíveis Three Lions, dentro de um emblema, o da Football Associaton (FA). Estão numa placa, colocada junto a uma das grandes janelas do número 63 da Great Queen Street, em Convent Garden, que informa que neste edifício - agora um grandioso salão de eventos - estava a Freemason’s Tavern. Nada mais e nada menos do que o local, um pub, onde se criou a Federação inglesa (FA) a 26 de Outubro de 1863. “O futebol moderno nasceu neste dia”, lê-se ainda, porque foi lá dentro, já a 8 de Dezembro, numa reunião às 7 o’clock, que se estipularam as regras que começaram a dar a forma que conhecemos ao desporto-rei.

Segundo consta, só ao quinto encontro na Freemason’s Tavern é que saiu o documento The Laws of the Game, autoria de Ebenezer Morley, com os 13 artigos que lançaram as bases. De maneira geral, fixaram-se as dimensões máximas dos campos, as balizas tinham de ter apenas dois postes (sem barra a uni-los), definiram-se as reposições laterais, o pontapé de saída no centro do terreno de jogo precedido de moeda ao ar, os primórdios do fora-de-jogo (lei afinada em 1866) e, por outro lado, os controversos handling (manuseio e transporte da bola com a mão) e hacking (pontapé na tíbia) foram proibidos, separando à nascença e para sempre o futebol do rugby.

Oito anos depois, organiza-se a The Football Association Cup. Exactamente, a FA Cup ainda hoje disputada. Então, tal como a Revolução Industrial, principiada em Inglaterra, o futebol tornou-se um movimento igualmente imparável e pronto a grassar para outras geografias.

Por essa maravilhosa criação, à porta do local fundador, deixam-se os agradecimentos devidos e parte-se para a última paragem deste tour alternativo por Londres, que é óbvia e inequívoca. Agora, todos os caminhos levam à parte norte da capital, ao Emirates Stadium, onde os Leões de Rui Borges querem continuar a rugir, agora como nunca antes na UEFA Champions League.