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Foto José Lorvão

Bodø, a cidade do vento, do mar e do futebol

Por Sporting CP
11 Mar, 2026

A Noruega prepara-se para receber o Sporting CP num dos palcos mais singulares do futebol europeu

Situada logo acima do Círculo Polar Árctico, Bodø é uma cidade moldada pelo mar e pelo vento, duas presenças constantes que ajudam a definir o ritmo de vida no norte da Noruega. Hoje com cerca de 50 mil habitantes, a maior cidade do condado de Nordland foi praticamente destruída durante a Segunda Guerra Mundial e reconstruída depois do conflito, razão pela qual o seu traçado urbano é simples, funcional e surpreendentemente compacto.

Tudo parece acontecer a poucos minutos de distância: o pequeno aeroporto, pouco preparado para afluências invulgares e aviões de grande porte, fica a escassos instantes do Aspmyra Stadion, casa do FK Bodø/Glimt. E o centro da cidade é ali ao lado.

Essa proximidade torna Bodø fácil de percorrer e quem chega rapidamente aprende a calcorrear sem mapa as suas ruas, nas quais os edifícios relativamente baixos e as varandas largas e luminosas revelam interiores cuidados e bem decorados. Muitas delas exibem bandeiras amarelas do clube local, criando uma imagem que faz lembrar o ambiente promovido por Luiz Felipe Scolari em Portugal durante o Euro’2004, quando o entusiasmo se espalhava pelas fachadas das casas.

Em Bodø, porém, a sensação não é apenas de pertença, já que as janelas amplas e os interiores visíveis parecem sugerir que a privacidade é um conceito menos rígido por estas latitudes. Funcionam, quase, como um convite involuntário à curiosidade de quem passa.

Para uma cidade de dimensão modesta e pouco marcada pelo turismo de massas, surpreende também a quantidade de hotéis concentrados em poucos quarteirões. Ao caminhar pelo centro, surgem cafés (os seus apreciadores dificilmente ficarão fãs da bebida aguada que por cá se consome), algumas lojas de recordações e vitrines onde não faltam peças de roupa de montanhismo, livros de Dan Brown a 40% de desconto e referências constantes à cultura local.

A contemplar quem passa, erguem-se pequenas figuras de vikings e criaturas do folclore nórdico, sobretudo duendes, lado a lado com as lembranças típicas da região. Em muitas dessas lojas vendem também diferentes tipos de snacks de bacalhau, embalados para consumo rápido, mas curiosamente, e ainda que se assuma que esta é a sua casa, o peixe não surge com destaque nos menus dos restaurantes mais populares.

A verdadeira forma do nome da cidade, que se pronuncia “Buda”, é uma das primeiras curiosidades linguísticas que quem chega aprende. “Olá” diz-se “hei” e “não” diz-se “nei”. Há espaço para a confusão. Já a moeda local, a coroa norueguesa desapareceu praticamente de circulação. Tudo se paga com cartão, o que para o comum turista é um alívio. Não para as carteiras, porém; os valores são bem mais altos do que em Lisboa.

A proximidade constante do mar recorda também a origem portuária da cidade. O porto de Bodø continua a ser um ponto central da vida local e um dos principais acessos às ilhas do arquipélago de Lofoten, que se estende ao largo da costa. Durante séculos, a pesca desempenhou um papel fundamental na economia desta região do norte da Noruega e, ainda hoje, muitas comunidades vivem dos recursos do mar e das actividades ligadas à indústria piscatória.

Mesmo junto ao porto, numa pequena ilha chamada Nyholmen, permanecem os canhões que integravam o sistema de defesa costeira instalado durante a Segunda Guerra Mundial, vestígios silenciosos de um período em que Bodø era diferente.

Indestrutível é a paisagem natural, e é ela que verdadeiramente molda o carácter do lugar. Na ponta mais distante do Bratten Aktivitetspark, uma área de lazer e desporto, o mar da Noruega estende-se diante das montanhas e dos fiordes, criando uma vista impressionante mesmo quando o céu amanhece nublado. A neve, por vezes insistente, pode tornar o passeio menos confortável, e o vento que atravessa a costa faz-se sentir com intensidade. Em Março, e com temperaturas na ordem dos 5 °C, a sensação térmica desce facilmente para valores negativos, próximos dos -2 °C. Porém, a tranquilidade que abraça olhos pouco acostumados a tal imensidão rapidamente faz esquecer qualquer incómodo.

Postal da zona é também a zona de Saltstraumen. Aí corre o rio com o caudal mais forte do mundo, capaz de gerar correntes que atingem velocidades próximas dos 40 km/h, e à entrada da localidade ergue-se uma igreja construída há 141 anos, em memória das 16 pessoas que, em 1869, a caminho da igreja vizinha de Bodin, perderam a vida ao atravessá-lo de barco.

Nas margens do estreito e na área envolvente permanecem também vestígios da presença viking e da Idade do Ferro, memória de que estas águas fazem parte de uma história muito mais antiga do que a própria cidade. A riqueza natural da zona ajuda a explicar essa continuidade ao longo dos séculos. A abundância de aves, peixes e mamíferos marinhos tornou a região habitável desde tempos remotos, permitindo que as comunidades locais sobrevivessem graças aos recursos do mar. A diversidade de espécies que hoje se observa na área é, em grande medida, semelhante à que sustentou gerações anteriores, e tudo isto sabemo-lo porque são muitas as placas informativas em diversas línguas que acolhem qualquer visitante que por ali passe.

De regresso a Bodø, a escala humana da cidade volta a revelar-se. O Aspmyra Stadion, casa do FK Bodø/Glimt, encaixa-se naturalmente no meio urbano. É um recinto relativamente pequeno e cheio de particularidades: além de albergar um complexo residencial (já lá vamos!), numa das suas laterais funciona um supermercado. Já a zona que em dias de jogo serve como Media Working Area é, no quotidiano, utilizada como creche.

Bruno Quadros, brasileiro emigrado em Bodø, vive precisamente num desses apartamentos cuja janela oferece uma vista panorâmica para o relvado do Aspmyra Stadion. Nos últimos tempos, os vídeos e fotografias que partilha desse ponto privilegiado têm recebido cada vez mais atenção online e, em declarações à Sporting TV, o mecânico contou como tudo começou.

"É maravilhoso, uma experiência fantástica. Nunca na vida imaginei que estaria a morar aqui, neste apartamento, a metros de distância do relvado, nem este desempenho do FK Bodø/Glimt. Ver grandes equipas jogar aqui, a metros de distância, não tem preço", confessou o apaixonado por futebol.

Ao perceber o interesse que aquele ponto de vista único despertava, Bruno começou a publicar conteúdos nas redes sociais para promover “a cidade, a cultura local e também o futebol do FK Bodø/Glimt”. E, apesar da ligação à cidade norueguesa, a admiração pelos maiores símbolos da formação Leonina continua bem presente.

"Eu sou um grande admirador do Luís Figo e do Cristiano Ronaldo, existe um respeito muito grande", contou, já com o olhar voltado para a visita verde e branca. Por isso, quando soube que o Sporting CP jogaria em Bodø, teve a ideia de convidar, através de um sorteio, alguns adeptos portugueses a acompanhá-lo de… camarote. E foi assim que, quando subiram ao sintético do Aspmyra para o treino de adaptação, os Leões foram surpreendidos por uma pequena mas ruidosa claque improvisada. Uma espécie de "meninos, estão à janela" do futebol, com as bandeiras "à lua" e vista directa para o relvado onde, dentro de poucas horas, se jogará mais uma noite europeia.

Cheia de detalhes inesperados, Bodø vive entre a tranquilidade de uma cidade do norte e a vibrante e repentina força de um clube que mobiliza toda a comunidade. Décima segunda maior cidade da Noruega, entrou no mapa mediático graças ao sucesso europeu do FK Bodø/Glimt, protagonista de campanhas marcantes nas competições da UEFA. Entre o mar, o vento e o futebol, nesta cidade do norte onde tudo parece acontecer a poucos passos de distância, em noites de céu limpo é possível assistir ao espectáculo natural das auroras boreais. A chuva e a neve que têm marcado estes dias não permitiram ainda esse privilégio, mas fica a esperança de que o verde se espalhe por Bodø de outra forma.