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Foto Instagram SeaSters Odesa, Isabel Silva

SeaSters Odesa: a estreia europeia de um clube nascido dos escombros

Por Sporting CP
04 Ago, 2026

Ucranianas são as adversárias do Sporting CP nas meias-finais da Ronda 1 da UEFA Women’s Champions League

No horizonte próximo da equipa feminina de futebol do Sporting Clube de Portugal está um desafio inédito, marcado por um contexto histórico e geopolítico singular. O embate com as ucranianas do SeaSters Odesa, agendado para esta quarta-feira, 5 de Agosto, assinala o pontapé de saída na época 2026/2027 e representa, para as Leoas, o primeiro passo na caminhada rumo a uma inédita qualificação para a fase regular da UEFA Women’s Champions League.

Já as ucranianas chegam pela primeira vez a esta fase da competição. Com apenas três anos de existência e um grave conflito armado como pano de fundo, o SeaSters Odesa é considerado o outsider do grupo nestas meias-finais da Ronda 1 de apuramento. Contudo, sem nada a perder e com um percurso meteórico como cartão de visita, apresenta-se em St. Pölten com legítimas ambições de surpreender a formação orientada por Micael Sequeira.

Resiliência em tempo de guerra
A Guerra Russo-Ucraniana teve início em Fevereiro de 2014, quando a Rússia anexou a península da Crimeia e apoiou milícias separatistas na região do Donbas. O cenário, contudo, agravou-se drasticamente a 24 de Fevereiro de 2022, após as forças russas encetarem uma invasão militar em grande escala por múltiplas frentes do território ucraniano.

A ofensiva transformou um conflito até então concentrado sobretudo no leste do país numa guerra em larga escala, cenário de uma crise humanitária que se prolonga há mais de quatro anos.

Foi precisamente neste contexto pouco ou nada favorável que, no Verão de 2023, nasceu o SeaSters Odesa. Fundar um clube profissional de futebol no feminino, num país profundamente marcado pela guerra, representava um enorme desafio e uma aposta particularmente arrojada, mas o projecto avançou ainda assim, apoiado por uma estrutura empresarial sólida.

O emblema integra o universo da Allrise Capital, grupo de investimento norte-americano que já tinha estabelecido uma ligação à cidade de Odesa ao adquirir, em 2020, os direitos de utilização do Estádio Chornomorets. Mesmo perante o agravamento do conflito, os investidores mantiveram o compromisso com a região, encarando o futebol não apenas como um projecto desportivo, mas também como uma forma de apoiar a comunidade local, canalizando recursos para iniciativas de assistência humanitária.

A identidade do clube reflecte igualmente essa ligação à cidade. O nome SeaSters resulta da conjugação das palavras inglesas sea (mar) e sisters (irmãs), numa referência simultânea ao Mar Negro e ao espírito de união que o projecto pretende promover na região. Para além da vertente competitiva, o SeaSters Odesa assumiu desde cedo uma relevante faceta de sensibilização internacional. Exposições como SeaSters: Strength and Hope (SeaSters: Força e Esperança), apresentadas em cidades norte-americanas como Washington, Sacramento e São Francisco, deram a conhecer a realidade vivida pelas atletas, com fotografias e vídeos de treinos interrompidos pelas sirenes antiaéreas e de infra-estruturas desportivas destruídas pela guerra.

O impacto do projecto faz-se sentir também junto da população local. Paralelamente à criação da equipa principal, o clube desenvolveu uma rede de escolas gratuitas de futebol para jovens mulheres, que conta actualmente com seis centros e incentiva cerca de 150 meninas à prática da modalidade. A ambição passa por alargar essa estrutura para até 25 escolas no final deste ano civil.

Também dentro das quatro linhas o crescimento foi notável. Na época de estreia, em 2023/24, o SeaSters Odesa conquistou a Ukrainian Women's First League e garantiu de imediato a promoção ao principal escalão. Duas temporadas depois, o clube assegurou o segundo lugar da Liga Ucraniana e garantiu uma histórica qualificação para as competições europeias.

Diferentes fases da temporada
A temporada desportiva na Ucrânia arrancou a 18 de Julho. O SeaSters Odesa chega, por isso, com maior ritmo competitivo a este encontro, e já disputou, inclusive, três jornadas da actual edição da Liga Ucraniana.

As ucranianas começaram o campeonato com uma goleada na visita ao Ladomir VV (0-4), resultado que repetiram no primeiro jogo da temporada em casa, frente ao Pantery Uman (4-0). Já na terceira jornada empataram a zeros no terreno do Kharkiv WFC, campeão em título e emblema com o qual dividem actualmente a liderança da prova. Muito consistentes, ainda não sofreram qualquer golo e demonstram uma eficácia ofensiva assinalável.

O plantel do SeaSters Odesa é composto por atletas experientes, com uma média de quase 30 anos. Das jogadoras ucranianas, a grande maioria, três são internacionais A: Daryna Ivkova, Kateryna Samson e Yana Kalinina. O grupo integra ainda as internacionais arménias Anastasia Klimova e Olga Osipyan, duas brasileiras, duas camaronesas - entre elas a dez vezes internacional Ysis Sonkeng -, a internacional moldava Dumitrita Prisacari, uma venezuelana e uma ganesa.

Já o Sporting CP, ainda em fase de consolidação dos seus processos de jogo, procura dar continuidade ao trabalho desenvolvido durante a pré-temporada, que terminou com uma vitória frente ao SCU Torreense (3-2) e um empate diante do Sevilla FC (0-0).

O encontro diante do SeaSters Odesa pode ainda assinalar a estreia oficial de Neuza Besugo, de regresso a casa, Carolina Alves, Emma Ramírez, Cassie Coster, Madalena Marau, Ágata Filipa e Ana Dias de Leão ao peito. Micael Sequeira convocou 24 atletas para o mini-torneio da segunda pré-eliminatória de acesso à fase de liga da UEFA Women's Champions League. 

Ainda em Lisboa, o técnico antecipou um primeiro jogo muito exigente, mas mostrou-se confiante quanto a uma boa campanha na prova. 

"A nossa motivação é muito grande. Trabalhámos de forma muito séria durante estes dias e acredito que vamos estar a um bom nível. (...) Criámos um grupo forte e coeso e, naturalmente, também uma equipa forte na qual as individualidades poderão surgir", garantiu Micael Sequeira, que mostrou conhecer bem a ameaça ucraniana.

"É uma equipa difícil, que procura jogar, que tem uma variabilidade de jogo engraçada - ora constrói a quatro, ora constrói a cinco - e que projecta muito bem as suas alas. Procura ser bastante ofensiva, com qualidade técnica, jogadoras experientes e já com ritmo competitivo", rematou.

Já Brenda Pérez, porta-voz do grupo no arranque oficial da época 2026/2027, lembrou a boa campanha na última temporada, mas garantiu que as Leoas querem... mais.

"Estamos muito concentradas neste jogo porque queremos muito levar o Sporting CP o mais longe possível nas competições europeias, depois do que fizemos na época passada. Sabemos que não vai ser um jogo fácil, mas temos vindo a treinar muito bem ao longo da pré-temporada e a trabalhar de forma muito agressiva e muito competente. Por isso, sentimo-nos preparadas para o que aí vem", frisou a capitã verde e branca.