João Gião: "Foi o clube certo na hora certa"
17 Jan, 2026
Treinador da equipa B abordou percurso no Clube em entrevista à Sporting TV
Ainda não completou um ano na liderança da equipa B de futebol do Sporting Clube de Portugal, mas João Gião já tem entre os seus méritos uma histórica subida de divisão e nesta época de regresso à Liga 2 – sete anos depois – levou a equipa até um impressionante segundo lugar no final da primeira volta.
Em conversa com a Sporting TV, o técnico passou em revista todo o seu percurso de Leão ao peito, clube em que assumiu pela primeira vez o cargo de treinador principal, e abordou as especificidades de comandar uma equipa B, as dificuldades e diferenças encontradas na Liga 3 e, agora, na Liga 2 e detalhou a forma como é feita a liderança, a gestão e a preparação de jovens jogadores no projecto verde e branco sempre com a equipa principal no horizonte.
Os marcos de relevo conseguidos em pouco tempo à frente da equipa B
"São dez meses, mas já parecem dez anos. Sinceramente, vinha com muito entusiasmo, conhecia os jogadores que tínhamos e acreditava que podíamos realizar algo diferente, como acabámos por conseguir na época passada. Foi um marco a subida a um patamar [a Liga 2] que permite outro tipo de competitividade a estes jogadores. Esta época tem, de facto, superado as nossas expectativas, se olharmos à classificação e aos resultados meramente desportivos. Se esperava? Não esperava que estivéssemos tão bem classificados [segundo lugar], mas esperava que fossemos competitivos e competentes como temos sido. Conhecia a mentalidade, a competitividade e a qualidade que temos no grupo."
Importância da experiência acumulada em diferentes funções e diversos contextos nacionais e internacionais (França, Suíça, Guiné-Bissau, Malásia)
"A nível pessoal, não tinha uma data ou idade fixa para começar como treinador principal. Queria que acontecesse e que eu estivesse preparado e, por isso, quis acumular o máximo de experiências e que fossem o mais ricas e diferenciadas possível. Daí o meu percurso ser algo alternativo. Essas funções deram-me ferramentas para desempenhar este cargo em particular, porque estive muitos anos ligado à formação, sobretudo como coordenador técnico, quer em Portugal, quer fora."
O 'sim' à equipa B do Sporting CP
"Diria que foi o clube certo na hora certa. Fui-me preparando e quando surgiu o Sporting CP nem olhei para trás. Já tinha tido uma ou outra possibilidade e achei que não estavam reunidas todas as condições. Com o Sporting CP, pelo clube e as funções em questão, achei que era a cereja no topo do bolo. Era uma equipa B e eu vinha do contexto do futebol profissional como adjunto, mas já tinha passado como coordenador técnico e treinador na formação, portanto havia essa mescla de preparação com o contexto do Sporting CP. Sendo o clube que é, com uma base muito sólida a nível estrutural e directivo, quer até pelo momento desportivo, era uma conjuntura extremamente favorável. Assim que surgiu a hipótese, para mim, foi o cenário ideal."
A subida à Liga 2 em 2024/2025
"Sabia das vantagens de ter uma equipa B na Liga 2 e todos estávamos conscientes de que era um passo importante. A pressão era mais externa, porque este é um clube grande. Não preparamos jogos unicamente com todas as ferramentas para ganhar o próximo jogo, porque a equipa B obriga a olhar para uma série de premissas durante a semana: há jogadores para potenciar e que precisam do momento de jogo, mesmo que às vezes as suas características até não sejam as mais adequadas; jogadores que aqui ou ali estão limitados por tempo para estarem disponíveis na equipa A. Temos de lidar com tudo isso, mas internamente nunca deixamos de perceber a pressão externa num clube grande como o Sporting CP. A cultura de vitória e exigência temos de colocá-la e passá-la diariamente aos jogadores. Sabem que temos de ser competitivos e tentar ganhar o jogo. Em termos de expectativas, temos de estar preparados mentalmente para momentos em que toda a gente espera que estejamos a ganhar, independentemente de estarmos num contexto de equipa B, especial, com muita volatilidade de jogadores. É uma equipa B, mas não deixa de ser um clube grande e de ter essa exigência."
Alcançar a subida de divisão com a equipa mais jovem em prova na Liga 3
"Muito mérito dos jogadores, muito jovens, mas muito maduros - alguns deles com dez anos de cultura Sporting CP. Mérito de muita gente que os formou e de outros treinadores que tiveram ao longo da época. Subir a partir da Liga 3 é realmente difícil, ainda mais no formato de fase final reduzida, onde a margem de erro é muito curta. Soubemos lidar muito bem com essa pressão e também tivemos a sorte que, aqui ou ali, é necessária para alcançar este objectivo. Muito mérito, mas temos de ser humildes e reconhecer que também tivemos essa 'estrelinha'. Mérito muito grande dos jogadores, que viraram jogos determinantes e empatamos outros em que estivemos a perder. Lembro-me do jogo com o CF 'Os Belenenses', em que estivemos a perder 1-0 até ao último minuto e eles estavam na luta connosco. Empatamos no último minuto, bem como ganhámos ao Atlético CP nos últimos minutos. Houve momentos de muita crença e união, nomeadamente de um grupo de jovens que na sua maioria ainda está connosco este ano. Uniram-se em prol de um objectivo maior para dar esta felicidade aos adeptos do Sporting CP depois de sete anos [fora dos escalões profissionais]."
As diferenças encontradas na Liga 2
"É uma diferença grande para a Liga 3. O nível dos jogadores sobe três ou quatro patamares e os melhores clubes da Liga 2 são muito mais próximos dos da I Liga do que os melhores da Liga 3 comparativamente aos da Liga 2. É o aproximar da exigência que os jogadores vão encontrar na equipa A, essa foi a grande conquista da subida. Têm de pensar mais rápido, o nível de preparação física é muito mais alto e o erro paga-se mais caro. O Sporting CP não deixou de formar jogadores para o topo sem ter a Liga 2, o salto era maior, mas agora isto faz com que o processo seja mais rápido e internamente temos mais certezas quando avaliamos um jogador. Olhando para os nossos confrontos com o FC Vizela, o Académico de Viseu FC ou o CS Marítimo, que estão recheados de jogadores de I Liga, ao comparar os nossos jovens jogadores dá-nos um grau de fiabilidade maior."
A excelente resposta do plantel apesar do 'salto'
"Recebemos alguns jogadores novos, perdemos outros fundamentais, por isso, grosso modo a equipa é basicamente a mesma, mas houve um crescimento evolutivo grande. Os jogadores jovens têm isso: às vezes o crescimento é exponencial de um ano para o outro, além de outros factores. Entrámos muito bem no campeonato, conseguimos instalar-nos rapidamente lá em cima e ter rendimento suficiente para fazer uma primeira volta que considero de sucesso. Estamos actualmente a passar por uma fase menos positiva e as derrotas que temos tido acontecem porque estamos na Liga 2. Fomos extremamente competitivos, fizemos o mesmo para ganhar, mas com falhas de concentração ou pouco rigor numa bola parada acabámos por ser penalizados com um golo e não conseguimos ganhar."
Conjugar a evolução dos jogadores com a busca pelos resultados
"Temos de conseguir conjugar tudo isso e neste patamar não dá para 'tirar o pé'. Temos de continuar a colocar jogadores que ainda não estejam no patamar de rendimento de uma Liga 2, mas precisam de jogar vários jogos para se adaptarem à realidade. Se não corrermos esse risco, nunca estarão preparados. Hipoteticamente, um treinador que esteja numa outra equipa, por exemplo, optaria por colocar um central mais rápido frente a um avançado rápido, aqui não. O nosso central tem de se adaptar a essa adversidade, porque para poder almejar a equipa A tem de passar por essa dificuldade e saber defender-se."
A subida de jogadores importantes fruto das necessidades da equipa A
"Esse é o nosso objectivo. Encantado da vida por já termos cinco jogadores da equipa B que se estrearam na A, num plantel tão forte como o do Bicampeão Nacional. É muito gratificante para nós. Como é lógico, esta fase de muitas ausências na A tem efeito em cadeia em nós e isso vai impactar o desempenho da nossa equipa, mas tem sido importante para ver outros jogadores que eventualmente não teriam a oportunidade tão cedo. Já estreamos o Rafael Mota e o Lucas Taibo, por exemplo, frente a uma frente de ataque forte como a do Académico de Viseu FC. Temos dado oportunidades a outros e temos continuado a ser competitivos, esse é o sinal mais importante que temos de extrair."
Perfil e características de um jovem jogador para ser mais-valia na equipa A
"Não há ilusões, a primeira é a qualidade e ponto final. Para lá da questão técnica, táctica e física, há uma dimensão que considero muito importante: a estrutura mental. Com a exigência actual do futebol, com tempos de recuperação curtos para ter níveis de rendimento muito altos de três em três dias, só um jogador muito resiliente à dor, ao esforço, à crítica e à fadiga, consegue sobressair. Todos os jogadores que chegaram e se impuseram na equipa A no ano passado [Geovany Quenda e João Simões] ou os que têm aparecido nesta têm essa dimensão muito vincada."
Manter os 'pés no chão' dos jovens que fazem a estreia na equipa principal
"Sempre com a verdade e a realidade. Levo-os sempre a ver as placas [dos jovens que se estrearam] que temos na Academia, onde há uma série de jogadores que se estrearam e não deram continuidade, outros que saíram e já nem profissionais são. A maioria dos casos é de sucesso, no Clube ou fora, mas temos de lhes explicar tudo isso, que nem todos os caminhos foram felizes. Chegar lá e estrear-se não é o mesmo que ser jogador da equipa A em definitivo. É um grande 'banho de humildade', e o míster Rui Borges faz o mesmo do seu lado e isso ajuda."
Relação com Rui Borges
"Temos uma relação muito informal e muito facilitada, quer com o míster, quer com os elementos da equipa técnica que também fazem essa 'ponte'. O míster, sempre que está disponível, vem ver os nossos jogos, e mesmo os treinos. Estamos muitas vezes à conversa, falamos todos os dias, porque há um fluxo a gerir e uma troca de informações diária. É uma relação muito simples e fluída."
Uma lista de 30 jogadores utilizados até ao momento na presente Liga 2, mas que promete não ficar por aqui
"Estou convencido que sim, quase de certeza e eventualmente já na próxima jornada. É o nosso caminho. Acho que o recorde de uma equipa B do Sporting CP é 37, não sei se chegaremos a esse número, mas com 30 a meio da época diria que estamos bem encaminhados."
O desafio acrescido de liderar uma equipa na UEFA Youth League
"Obriga-nos a uma gestão e organização grandes, porque temos de gerir a actividade de duas equipas em simultâneo. Na mesma semana preparamos dois jogos e com dois grupos diferentes. O que tenho levado é a possibilidade de conviver com outros jogadores que, em condições normais, não poderíamos ter um conhecimento tão profundo."
Final perfeito para a presente temporada: vencer a Liga 2 ou ver os 'seus' jovens a brilhar na equipa A?
"Tem de ser sempre a segunda. Vamos entrar em todos os jogos com a mesma mentalidade, para ganhar e impondo a nossa forma de jogar, é a isso que nos obriga o ADN do Sporting CP, e depois o nosso objectivo principal será sempre desenvolver individualmente jogadores e acelerar o seu processo para que possam estar disponíveis, com as competências e capacidades necessárias, para o míster Rui Borges."