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Foto Museu Sporting – Centro de Documentação

Sporting CP no Jamor: mais de um quarto de século de histórias para contar

Por Sporting CP
21 maio, 2026

Viagem pelos momentos de êxito, sombras e redenção já vividos no Estádio Nacional

Ao logo dos seus quase 82 anos, o Estádio Nacional afirmou-se como palco por excelência da final da Taça de Portugal e, nesse âmbito, o Sporting CP prepara-se para a sua 30.ª ida ao Jamor. De lá já saiu, entre finais inesquecíveis, outras de má memória e uma eternamente trágica, com 16 das suas 18 conquistas, mas a rica ligação dos Leões ao Jamor extravasa a prova-rainha. Uma longa história aqui revisitada.

Todos querem chegar ao Estádio Nacional, o ensolarado e velhinho anfiteatro para mais de 37 mil pessoas que no vale do Jamor, em Oeiras, encerra um dos mais míticos espaços do futebol português. Significa acabar a época em ambiente de festa e, claro, com a hipótese de conquistar um troféu, a Taça de Portugal. Mas nem sempre foi assim, porque antes de nascer o Jamor (em 1944) já havia prova-rainha (desde 1938/1939).

Foi na temporada 1945/1946 que se tornaram sinónimos e o Sporting Clube de Portugal assumiu-se logo um dos seus primeiros reis: depois das anteriores conquistas em 1940/1941 e 1944/1945, venceu a primeira final da Taça disputada no Estádio Nacional (4-2 Atlético CP) e também a segunda (3-1 CF “Os Belenenses”), no ano seguinte. Fernando Peyroteo (dois ‘bis’) e Albano marcaram em ambas, estava a começar a dourada era dos ‘Cinco Violinos’.

No entanto, a ligação (de sucesso) dos Leões ao Jamor é prévia, remontando mesmo à data da sua inauguração, o dia 10 de Junho de 1944, enquanto ainda decorria a II Guerra Mundial – o ‘Dia D’, curiosamente, dera-se quatro dias antes. Após a pomposa parada militar que desfilou no Estádio Nacional, não fosse, este, obra do Estado Novo, um encontro entre Sporting CP (Campeão Nacional) e SL Benfica (detentor da Taça de Portugal) culminou a inauguração: em jogo estiveram a Taça Império – uma precursora da Supertaça – e a Taça Estádio, ambas arrebatadas pelos Leões, que com mais um ‘bis’ de Peyroteo venceram o rival por 3-2.

Assim, dois anos volvidos, o recinto levantado em ditadura passou a ser o palco predilecto da mais democrática das provas nacionais. Tanto é que ao longo das décadas só por sete vezes o Jamor não acolheu a final da Taça de Portugal, ora por excepções feitas para ser jogada a Norte (1960/1961 e 1982/1983), ora por indicação da FPF para que fosse disputada em casa do vencedor anterior (1974/1975, 1975/1976 e 1976/1977) e, mais recentemente, por falta de condições para acolher jogos em tempos de pandemia (2019/2020 e 2020/2021). Curiosamente, em nenhuma destas o Sporting CP esteve envolvido na decisão, mas o êxito verde e branco na Taça continuou a ser trilhado e o Estádio Nacional preservou-se como seu cenário singular.

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Dessa extensa galeria de conquistas, uma das mais importantes foi a de 1962/1963. O 4-0 ao Vitória SC - com golos de Ernesto Figueiredo, do defesa-goleador Lúcio Soares e do letal Mascarenhas - foi inequívoco e levou a prova-rainha de volta para Alvalade. Mas, à luz da História, teve outra (grande) particularidade: esta conquista deu o apuramento para a Taça das Taças da época seguinte. Exactamente, a dos ‘Heróis de 64’, ainda hoje a única conquista europeia dos Leões. Pode dizer-se que tudo começou no Jamor, um palco que na década anterior já tinha ganho dimensão europeia – e, até, um lugar eterno na História do futebol - também graças ao Sporting CP.

Foi no Estádio Nacional que a 4 de Setembro de 1955, um domingo e durante a tarde, teve lugar a primeira partida de sempre da Taça dos Clubes Campeões Europeus – antecessora da actual UEFA Champions League. Neste episódio histórico, que teve um espectáculo à altura dentro de campo, os Leões empataram num entusiasmante 3-3 com o FK Partizan, vindo da então Jugoslávia para disputar esta primeira mão da ronda inaugural (‘oitavos’). O Sporting CP foi o anfitrião e teve o Jamor como ‘casa emprestada’, porque, então, estava a nascer o (antigo) Estádio José Alvalade, em plena fase de trabalhos para ser inaugurado no ano seguinte.

Regressando à festa da Taça, na viragem para a década de 70, o Jamor tornou-se habitat natural dos Leões como nunca: entre 1970 e 1974, disputaram cinco finais consecutivas e por três vezes (1970/1971, 1972/1973 e 1973/1974) acabaram com o troféu nas mãos após a mítica subida pela escadaria até à tribuna. Duas - com Chico Faria a brilhar com intensidade - foram vencidas ao SL Benfica, com quem perdeu as duas restantes, e a outra foi ganha a um Vitória FC (3-2) que tinha chegado aos ‘quartos’ da Taça UEFA.

Quanto a esses dérbis de boa memória, se em 1971 o expressivo 4-1 imposto falou por si, três anos depois a conquista teve outro sabor pela reviravolta conseguida. Nené adiantou as águias à meia hora e nada mudou até bem perto do fim, quando Chico Faria empatou aos 89’ e, já no prolongamento, Marinho deu a volta completa ao texto para deixar o troféu nas mãos de Vítor Damas.

Foi a primeira final da Taça disputada em liberdade, pouco mais de um mês após o 25 de Abril, e o Sporting CP saiu dessa temporada com uma ‘dobradinha’. Uma proeza repetida e culminada, também, no Estádio Nacional em 1981/1982 (4-0 SC Braga), graças aos golos de António Oliveira (‘bis’), do capitão Manuel Fernandes e ainda Rui Jordão, antes de o Sporting CP entrar abruptamente em longas travessias sem encontrar consistentemente o caminho de regresso ao Jamor – e aos títulos.

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A prova-rainha, ainda assim, serviria para vislumbrar alguma luz e quebrar ‘jejuns’ nas décadas seguintes, mas na funesta edição de 1995/1996 - precisamente há 30 anos - tudo foram sombras e a festa da Taça passou a tragédia graças a um episódio negro. Nas bancadas do Estádio Nacional, Rui Mendes, espectador Sportinguista, foi atingido mortalmente por um very-light lançado por um adepto adversário, do SL Benfica. Uma mancha sempre presente e inapagável do Jamor.

Dentro de campo, só na edição anterior é que os Leões tinham voltado a ser felizes. Ivaylo Iordanov, com golos a abrir e a fechar o jogo (9’ e 86’), levou de novo a equipa verde e branca ao topo da escadaria e deu a uma talentosa geração de jogadores o seu único troféu no Clube.

Depois, com a chegada do novo milénio e o regresso aos títulos de Campeão Nacional, a pontaria do goleador Mário Jardel, também no Jamor (1-0 Leixões SC em 2001/2002), valeu uma nova Taça de Portugal para reeditar finalmente a ‘dobradinha’ a verde e branco, algo que só voltou a acontecer sob o comando de Rui Borges, já em 2024/2025. Até lá, só à base de (muitas) emoções fortes é que o Sporting CP conseguiu agarrar mais quatro Taças e, ao mesmo tempo, lamber as feridas de duas traumáticas finais perdidas pelo caminho.

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Se em 2006/2007 (0-1 CF “Os Belenenses”), a vitória já chegou tarde (87’) e pelos pés de quem sempre resolvia, o oportuno Liedson, na edição seguinte só o prolongamento trouxe os golos e garantiu o troféu, mas o herói não podia ter sido mais improvável. Em dois actos, o último numa recarga de bicicleta, o avançado Rodrigo Tiuí ‘bisou’ pouco depois de entrar – ainda só tinha um golo marcado em toda a época – e deu a vitória (0-2) sobre um FC Porto recém-sagrado tricampeão, deixando para sempre o seu nome no imaginário Sportinguista.

E para voltar a sair do Estádio Nacional com um sorriso foi preciso sofrer e, acima de tudo, perseverar até 2015. Para trás estavam quase sete anos sem qualquer troféu, entre os quais uma final de Taça perdida para a A. Académica de Coimbra (0-1 em 2011/2012) e um sétimo lugar na Liga (2012/2013) e, para piorar tudo, com apenas 25 minutos decorridos da final com o SC Braga, o Sporting CP perdia por 0-2 e estava com dez desde os 14’… mas quem não se lembra como acabou? Já no fim, Slimani (84’) e Fredy Montero (90+4’) transformaram o impossível numa das mais épicas reviravoltas já vistas no Jamor, consumada nos penáltis.

Poucos anos depois, o Estádio Nacional voltou a ver o Leão tombar com estrondo e de forma inesperada, mas também reerguer-se uma vez mais até alçar a prova-rainha novamente. A queda foi em 2017/2018 contra o CD Aves (2-1), num jogo em que o Sporting CP não mostrou reacção, ainda a viver na ‘ressaca’ da grave invasão à Academia que abalou todo o Clube.

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A resposta, novamente, foi dada no Jamor, logo na edição seguinte e contra o FC Porto (2-2 e 5-4 g.p.). E este sofrido – e merecido - momento de redenção foi atingido outra vez nos penáltis, depois de os Leões até terem virado o marcador de 0-1 para 2-1 e sofrido o empate nos descontos do prolongamento. Desde a marca dos 11 metros, Bas Dost começou por acertar na trave – a mesma que lhe negou um golo fácil frente ao CD Aves – mas o líder Bruno Fernandes, Jérémy Mathieu, que acabou em lágrimas, Coates, Raphinha e, finalmente, Luiz Phellype foram irrepreensíveis. A barra e o guardião Renan Ribeiro fizeram o resto para pintar de novo a festa do Jamor de verde e branco.

De volta aos dias de hoje, o Sporting CP voltou a tornar-se assíduo frequentador do Estádio Nacional e vai actualmente para a sua terceira final da Taça consecutiva. Já a última vez que ali jogou, curiosamente, foi por outras razões e ainda nesta época. Foi bem no início, a 25 de Julho de 2025, com o Jamor a servir de ‘casa emprestada’ aos Leões para o Troféu Cinco Violinos (1-0 Villarreal CF) - realizado pela primeira vez fora do Estádio José Alvalade, então com obras em curso.

Foi a última prova – e um caso com algumas semelhanças ao de 1955 - da ligação umbilical que une o Sporting CP e o Jamor, e que não fica por aqui. Domingo já está aí com mais uma nova história para contar.

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