"Dei muito de mim ao Sporting CP, mas o Clube deu-me tudo"
03 Jul, 2026
João Matos com uma grande entrevista de final da carreira
Mais de 20 anos depois a vestir a listada verde e branca, João Matos despede-se do Sporting Clube de Portugal e do futsal.
Homem de um só clube, decidiu pendurar as sapatilhas e terminar a carreira aos 39 anos, depois de mais de duas décadas ao mais alto nível. Para trás ficam mais de 800 jogos e mais de 40 títulos de Leão ao peito, que fazem dele o jogador que mais vezes vestiu a camisola do Sporting CP e o que mais troféus conquistou também.
Tornou-se Lenda do Clube por tudo o que fez e deu na quadra, assim como por ter personificado tão bem o lema do Sporting CP: Esforço, Dedicação, Devoção e Glória fizeram sempre parte do percurso de João Matos.
Internacional por Portugal durante mais de 15 anos, diz também adeus como o jogador mais internacional de sempre com 213 jogos e quatro títulos, entre eles dois Campeonatos da Europa e um Mundial.
Na hora da despedida, João Matos falou com os meios de comunicação do Sporting CP e deu conta das emoções, recordando a carreira que construiu e o legado que ficará para sempre na história do emblema Leonino e do futsal português. Pode ler, também, a parte dois, parte três e parte quatro da entrevista.
Depois de tantos anos, tantos jogos e tantas conquistas, decidiu terminar a carreira. Já lhe "caiu a ficha" sobre essa decisão?
Não, não caiu, não vai cair tão cedo e pior será quando os meus ex-companheiros começarem a pré-época e voltarem a jogar neste pavilhão [João Rocha]. Apesar de a decisão já estar na minha cabeça há algum tempo, vai ser uma experiência nova para mim, um novo desafio e uma grande mudança de vida. Por mais que esteja decidido, ainda que pudesse continuar a jogar porque o fim não se deve a condições físicas, foi o contexto que me levou a tomar esta decisão, vai ser difícil e vai demorar o seu tempo.
E sente que, apesar dos mais de 20 anos, passou tudo muito rápido?
Passou a voar. Queixamo-nos sempre de que as épocas são longas e cansativas, mas foram 24 e passaram muito rápido. É giro olhar para trás e ver que são mais de duas décadas, 20 anos enquanto sénior, e ter flashbacks de quando cheguei. Perdi algumas memórias do meio do caminho, mas estes últimos anos foram muito marcantes. Os últimos cinco anos voaram completamente. Foi um período extraordinário em termos de conquistas e agora dou por mim no fim da carreira.
Valeu tudo a pena?
Sem dúvida, acho que não há dúvida sobre isso, e isto que está aqui ao nosso lado [os troféus] demonstra bem que valeu a pena.
Viveu tudo e desfrutou destes troféus como queria?
Vivi tudo da maneira que vivo a vida. Este desporto dá-nos muitas competências e muitas valências, mas também nos dá uma coisa que é a acção-reacção. Perdi a bola, tenho de a recuperar a seguir, por exemplo. Essa consciência e toda esta rapidez foram-se acumulando na minha cabeça: ligar e desligar constantemente. Por isso, da mesma forma que quando perdia estava focado no que se seguia, quando vencia era igual. Se é correcto ou não, se desfruto muito ou pouco, desfrutei à minha maneira e na minha forma de ser e de estar no desporto. Sem excessos, sem loucuras, muitas vezes ciente de que podia festejar mais, mas também não se pode, por exemplo, ganhar uma Champions e festejar muito porque dois dias depois já se está a treinar e podes não ganhar a competição que se segue. O único título que nos permite desfrutar por mais algum tempo é o campeonato porque entramos em período de férias. Por isso, acho que esta rotina virou mentalidade. Por um lado, ajudou a que nas derrotas não me fosse abaixo, mas, por outro lado, se calhar fez-me não desfrutar tanto como os meus colegas.
Ainda assim, viveu tudo intensamente. O trabalho e a dedicação dentro e fora de campo…
Sim, fui sempre assim e, por isso, agora preciso de desligar. A minha cabeça está cansada, estou a mil e essas rotinas diárias, mesmo não estando a treinar, deixam-me acelerado. Nesta modalidade, e no desporto em geral, vivemos as coisas com muita intensidade. São treinos, são estágios, são viagens e temos de conjugar tudo isto com o nosso lado pessoal. Isso, por vezes, é muito cansativo e muito exigente. Por aí, e acho que cada vez há mais essa noção, a vida de um desportista não é um mar de rosas.

E não se arrepende do tanto que perdeu no lado pessoal para ganhar tanto no lado profissional?
Nada, de todo. E mesmo que não tivesse ganho mais de 40 títulos, não me iria arrepender, porque esta vida não se faz só de títulos, faz-se de pessoas, momentos e emoções — a adrenalina, o frio na barriga, o nervosismo. E, neste momento, vejo vídeos de vários momentos que vivi e sei que já não vou viver nada disso de novo. Já não vou ter aquela adrenalina, aquele festejo, não vou gritar com o meu colega porque não está a correr para a direita, não vou estar a dar indicações aos gritos ou não vou estar no banco a puxar por um dos meus colegas. Neste momento é olhar para trás e pensar que não vou ter este tipo de emoções, mas vou ter de ter outras e de ir buscá-las a algum lado.
E estar aqui, no Pavilhão João Rocha, pela última vez como jogador do Sporting CP é estranho? Foi a sua casa em nove das mais de 20 épocas na equipa principal.
Hoje ainda não é estranho, só depois de desligar. Há poucos dias ainda estava, não neste, mas num pavilhão com adeptos e com a equipa a competir. Por isso, ainda é muito cedo para ter essa sensação. Acho que é normal, depois de tantos anos desta rotina, ainda ser difícil perceber o que é que vou sentir. Falo com muitos ex-jogadores, porque o meu círculo de amigos do futsal são praticamente todos antigos jogadores, e todos dizem o mesmo: por mais que te prepares, não estás preparado. Eu ainda não sei isso, mas vou sentir na pele e vou precisar de sentir isso. Vou e quero, porque é sinal de que me entreguei e que valeu a pena.
Vai ter muitas saudades, não vai?
Claro, e vou sentir falta de entrar na quadra e ouvir a Marcha, de sentir o calor dos adeptos e de sentir toda aquela intensidade do balneário. Vai custar-me muito e, por isso, é que o meu último jogo no João Rocha foi, provavelmente, um dos jogos mais difíceis da minha vida. Foi difícil conciliar o lado emocional com o que tinha de fazer. Foi uma loucura. Vou ter muitas saudades.
E porque é que, desde há muitos anos, tinha a vontade de terminar a carreira no Sporting CP e acabar, assim, por só representar um clube?
Não me via a jogar noutro clube. Foram muitos anos aqui – porque acreditaram em mim, porque fui sendo uma mais-valia e porque batalhei para ir ficando; nada me foi oferecido, e ainda bem – e, além disso, é o clube do meu coração. Isso ajuda a pesar as coisas, mas também não me via a jogar num rival. Tendo em conta o meu sentimento, principalmente nos últimos meses, não me via a treinar, a continuar a viajar, a estar longe da família e a ter de vir jogar ao João Rocha contra o Sporting CP. Seria um desafio muito interessante para mim, certamente, mas não fazia sentido. Dei muito de mim ao Sporting CP, mas o Sporting CP deu-me tudo e só fazia sentido ser assim, e sempre expressei isso. Neste momento, se houvesse necessidade pura e o desejo de continuar a jogar, se calhar voltava atrás com essas palavras — e tive propostas para continuar a jogar —, mas a mim não me fazia sentido deixar esta casa e ir para outro lado fazer o que fazia aqui.
No vídeo de despedida disse que “quando se joga com amor, quando se joga com alma, não existe outro lugar”. O seu lugar sempre foi Alvalade/Pavilhão João Rocha?
Sempre. E por muito casmurro que eu seja, e que reclame muitas vezes — porque sou assim, sou torto e tenho essa consciência —, esta é a minha casa, sem dúvida alguma, e acho que as pessoas sentem isso. Acho que é visível. Não digo que não fosse lutador, batalhador, noutro clube, porque é da minha forma de estar, mas também nunca escondi o verdadeiro amor que eu e toda a família Matos temos ao Sporting CP. Além disso, eu vivi aqui uma vida inteira – treinei nos antigos pavilhões, joguei na Nave, passei por Odivelas e pelo Paz e Amizade [Loures] – e sou muito grato por tudo.
Leia a parte dois, parte três e parte quatro da grande entrevista de João Matos aos meios de comunicação do Sporting CP.