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Foto João Pedro Morais, UEFA

"Já sinto saudades…"

Por Sporting CP
03 Jul, 2026

Parte quatro da grande entrevista de João Matos

Na hora da despedida, João Matos falou com os meios de comunicação do Sporting Clube de Portugal e deu conta das emoções, recordando a carreira que construiu e o legado que ficará para sempre na história do emblema Leonino e do futsal português. Pode ler, também, a parte um, parte dois e parte três da entrevista.

Despede-se com três Ligas dos Campeões, 12 Campeonatos Nacionais, 10 Taças de Portugal, entre tantos outros troféus. A primeira Champions foi o título mais importante?
Sim, no Sporting CP, sim, mas também fui Campeão do Mundo com a Selecção. E, com todo o respeito aos Sportinguistas, e acho que percebem, o Mundial sobrepõe-se a uma Liga dos Campeões. Mas a primeira que conquistámos foi, sim, o título mais importante porque foi, sem dúvida, um ponto de viragem. Foi a bola bater no poste e entrar depois de muitos anos a tentar, foi investimento, foram jogadores, foram derrotas duríssimas em finais, foi tudo e mais alguma coisa. Essa conquista galvanizou-nos e impulsionou-nos para termos ainda mais fome, e aquilo que conseguimos fazer foi extraordinário: vencemo-la e demos continuidade a isso ao mais alto nível. E, por isso, é que a minha carreira virou completamente do avesso com títulos internacionais em seis/sete anos.

Ganhou no Sporting CP e ganhou na Selceção, com a companhia de muitos jogadores do Clube também. Sente que as conquistas no Sporting CP, esse vício e hábito de ganhar, ajudaram a Selecção?
Tudo o que eu fiz no Sporting CP ajudou a Selecção. É no clube que se aprende, que se ganha essa fome e essa ambição, porque o trabalho diário é feito aqui. A Selecção bebe depois aquilo que se faz nos clubes. E, claro, ajudou muito, certamente. Há sete anos não tinha nenhuma Champions, agora tenho três. Estive uma década e meia sem ganhar uma e, de repente, tenho três. Jamais pensava que isto iria ser possível. Sem dúvida que desbloquear essa página nos deu fome de conquista, e essa fome de conquista, também pelos jovens que foram aparecendo no Sporting CP — com uma mentalidade diferente da minha, mais ambiciosa, mais louca e mais intensa —, ajudou a Selecção.

Começou este percurso a vencer e terminou a vencer, ainda que não tenha conquistado um último Campeonato Nacional. Quão importante é para si que tenha sido assim? O adeus com mais uma Champions na mão…
Acabar a carreira com a conquista de mais uma Liga dos Campeões é de sonho, claro. Mas, e permitam-me dizer isto, esta prova devia jogar-se no final da época, como acontece no futebol. Com todo o respeito pelo nosso campeonato, ganha-se uma Champions, é-se o melhor clube da Europa ao ganhar a competição mais importante de clubes, e dois dias depois já se está a preparar um jogo de play-off do campeonato. É cruel, não se faz a um atleta e não se faz a uma estrutura que acaba de tocar o céu. Acima de tudo, não é justo porque não nos permite desfrutar essa conquista na plenitude. Mas, claro, terminar a carreira com esta conquista foi muito bom. No campeonato, infelizmente, o desfecho não foi como queríamos e como esta equipa e este plantel mereciam. E, para mim, ainda há a mágoa de não ter conseguido jogar a negra por lesão, tal como no ano passado.

Disse, no decorrer desta entrevista, que o Sporting CP lhe deu tudo na vida. Por isso, o que leva neste seu último dia no Clube?
Levo um misto de emoções muito grande e que ainda é muito difícil de processar e de digerir, mas já sinto saudades. Levo um enorme sentimento de orgulho, uma carreira inacreditável, pessoas, momentos e memórias. Por isso é que ainda me é muito difícil conseguir explicar aquilo que sinto neste momento e que vou sentir no futuro. Acima de tudo, prefiro falar do que de bom fica e não da tristeza de não continuar a representar o Sporting CP.

E, agora repassando tudo o que aqui viveu nestes mais de 20 anos, há algum momento mais marcante que lhe venha logo à cabeça?
Há vários, mas o levantar a primeira Liga dos Campeões aqui no João Rocha é algo impossível de esquecer. Acho que foi o meu momento mais feliz no Sporting CP. Essa conquista foi mesmo especial por tudo. Como já disse, por ser a primeira, pelos festejos, pela loucura da equipa e dos adeptos…

E o momento mais triste qual foi?
Provavelmente a Liga dos Campeões que disputámos no MEO Arena. Foi muito difícil não conseguirmos conquistar o troféu diante dos nossos adeptos, mas as condições que tínhamos na altura, o plantel, o momento, o contexto e quem defrontámos [FC Barcelona] se calhar conseguem minimizar essa tristeza. O que sempre foi, de facto, muito triste para mim foi não poder ajudar a equipa devido a lesão, principalmente nestes últimos dois anos.

"Ficar na história? Não tenho essa noção"

Para terminar, e porque o seu legado é impossível de apagar, tem noção de que fica na história do Sporting CP?
Não tenho essa noção porque acho que, apesar de saber os números, não tenho bem noção do que fiz e do que conquistei. Os números e os títulos dizem que estive presente, que trabalhei e que fiz muito pelo Sporting CP, por isso ficarei na história por ter ajudado o clube a conquistar estes títulos todos, mas não tenho bem noção do que deixo individualmente.

E como é que acha que, no futuro, vai ser recordado pelos Sportinguistas?
Muito sinceramente, acho que daqui a dez anos já ninguém se vai lembrar de mim porque o desporto, nestas coisas, é muito ingrato. Claro que fiz muito, e quem faz muito é sempre lembrado, mas não quero criar nenhuma expectativa porque a realidade me diz que muito depressa caímos no esquecimento. Já foi assim com outros.

Isso é a humildade a falar ou, de facto, não sabe a dimensão da grandeza que tem e do que fez?
Se calhar não. Sei a forma como sou visto e reconhecido pelo Mundo fora no futsal, mas não tenho essa noção. Acho que essa janela se vai abrir agora e tenho de esperar para ver.

Leia a parte um, parte dois e parte três da grande entrevista de João Matos aos meios de comunicação do Sporting CP.