"Fora do Sporting CP não teria mais de 40 títulos"
03 Jul, 2026
Parte dois da grande entrevista de João Matos
Na hora da despedida, João Matos falou com os meios de comunicação do Sporting Clube de Portugal e deu conta das emoções, recordando a carreira que construiu e o legado que ficará para sempre na história do emblema Leonino e do futsal português. Pode ler, também, a parte um, parte três e parte quatro da entrevista.
Esteve, basicamente, em todo o processo de crescimento do futsal do Sporting CP. Acha que teria sido possível construir a carreira que construiu, e vencer o que venceu, noutro clube que não este?
Não. Seria impossível até porque não conquistei nada disto sozinho. Foram as pessoas que acrescentaram valor ao Sporting CP que permitiram que isto acontecesse. Não foi uma questão de acaso ou de sorte, nem apenas do trabalho do João Matos, ainda que tenha dado a minha contribuição porque todos demos. Isto foi tudo graças ao Clube, às infra-estruturas, às pessoas credenciadas e com capacidade de trabalho, aos jogadores de muita qualidade que foram passando por aqui e ao staff que foi acrescentando valor. Passei por muitos ciclos, muita coisa e, de facto, acompanhei a evolução do clube em muita coisa e, certamente, fora do Sporting CP não teria mais de 40 títulos.
E acha que o facto de ter jogado só aqui, ter mantido os valores e ter conquistado tanto, faz com que seja respeitado não só pelos Sportinguistas, mas pelos adeptos em geral?
Acho que como em tudo, ou quase tudo, na vida se não houvesse 40 títulos, não seria assim, mas acredito que a lealdade, o compromisso, a dedicação e o esforço construam um legado. E agora, mais aos poucos, estou a perceber que sou um jogador consensual.
"Saber que fui um bom desportista é algo que fica da minha carreira e é tão bom como um troféu"
E é importante para si ter esse reconhecimento de adeptos do Sporting CP e rivais, jogadores, jornalistas e pessoas ligadas ao futsal, mas não só?
É uma boa questão… é bom sentirmos isso, é bom olharmos para trás e percebermos que fomos pessoas com valores e pessoas educadas — umas vezes mais do que outras. Tenho noção de que quando era mais jovem tive os meus devaneios e que nem sempre fui correcto, mas a maturidade e a experiência vieram acrescentar outros valores. Mas, sim, é bom saber que olham para mim e que me abordam como um bom homem do desporto, com bons valores, educado e que respeita tudo e todos. Saber que fui um bom desportista é algo que fica da minha carreira e é tão bom como um troféu.
Foram os seus valores e o “ser como um Leão” dentro de campo que o fizeram sobressair, em comparação com jogadores mais vistosos?
Foi uma das coisas, certamente que sim. Ter consciência das nossas limitações é sempre um passo muito importante para crescermos. Eu tinha consciência do que tinha de melhorar e de que tinha de fazer valer as minhas valências para ajudar sempre a equipa. Acho que isso, o pôr sempre o colectivo em primeiro lugar, é que me fez vingar durante muitos anos e estar estes anos todos no alto rendimento. Isto é um desporto colectivo. Quando estava em campo era 20 por cento do rendimento da equipa, mas quando estava fora também tinha a minha percentagem de ajuda. Sabia que nunca ganharia nada sozinho e, por mais que diariamente tentasse superar o colega da minha posição, no final dava-lhe a mão para jogar tanto ou mais do que eu porque, se ele tivesse um rendimento melhor do que o meu, o Sporting CP ganhava e eu também ganhava mais um título.
E essa forma de ver a competição nasceu consigo ou foi algo que se foi desenvolvendo ao longo dos anos e, sobretudo, quando assumiu a braçadeira de capitão?
Creio que isto veio de casa e da educação que tive. Sou de uma família humilde e de desportistas, que me passou estes valores. Eu na formação do Sporting CP, e mesmo no Carnaxide, antes de vir para cá, já era assim. Na altura, tinha características diferentes e evidenciava-me mais do que os outros, mas sempre fui um jogador de equipa porque acho que só faz sentido assim. E isto vale para a vida também. Acho que devemos dar a mão ao outro, ajudá-lo a crescer e a ser melhor. Eu acho que sou assim, tenho essa essência, no desporto como na vida, e acho que isto de olhar pelos outros, ajudá-los e querer fazê-los ser melhores, forma equipas fantásticas e faz com que as equipas cresçam em termos de rendimento, em termos de ligação emocional e isso, se calhar, ajuda a conquistar títulos.

"Eu e o Nuno Dias casámos muito bem"
Foi também por isso, e por ter o poder de dizer as coisas certas no momento certo, que se tornou capitão nas equipas de formação do Sporting CP, na equipa principal e na Selecção?
Por acaso, não sou muito de palavras, sou mais observador, mas acho que as palavras certas têm de ser ditas na hora certa e no contexto certo porque quando se fala muito a mensagem não tem tanto impacto. Há mensagens que têm de ser impactantes, seja para causar efeito imediato, seja para motivar ou o que for, e há palavras que também têm de ser pensadas, assim como ditas no momento certo. Isso não nasceu comigo, fui crescendo e evoluindo nesse campo porque tive professores extraordinários.
Ao longo dos últimos anos, foi a extensão do Nuno Dias dentro de campo e a carreira dos dois está intimamente ligada. Acha que a chegada dele acabou por ser um momento fracturante na história do futsal Leonino e português?
Claro, não é por acaso que o Sporting CP é considerado a equipa da década nos anos em que ele está no Sporting CP. Eu e o Nuno casámos bem. Fui uma extensão dele dentro de campo, houve momentos em que pensámos de forma idêntica e outros em que não, mas sempre nos completámos com a mesma mensagem dita de formas diferentes e acho que isso ajudou muito a termos sucesso.
De que forma é que a liderança dele deu espaço à sua, enquanto capitão, ao longo de todos estes anos?
Nunca houve barreiras, nem entraves. O Nuno chegou ao Sporting CP com um método de treino e de jogo totalmente diferentes daquilo a que nós estávamos habituados. Mudou completamente a forma de treinarmos e de jogarmos e eu tive de me adaptar a essa realidade. Isso foi difícil, foi um excelente desafio para mim, que vinha de outro tipo de rotinas, mas o Nuno também teve de se adaptar àquilo que era a minha forma de estar e acho que, como disse, casámos perfeitamente. O Nuno veio trazer outro tipo de liderança, com muita ambição, com muita rigidez e com muito perfeccionismo, mas nunca chegou ao pé de mim e disse “não faças isto, faz assim” ou “preciso de ti assim, não quero que estejas neste registo”. Da mesma forma que eu nunca cheguei ao pé do Nuno e disse “não podes falar assim com determinada pessoa” ou “não podes ter este tipo de comportamento”. Isso nunca aconteceu porque as ideias casavam.
As duas lideranças entendiam-se e respeitavam-se…
Exactamente. Eram lideranças diferentes, mas entendiam-se e respeitavam-se porque tínhamos em comum o desejo de que a equipa crescesse e a mesma vontade de ganhar.
Leia a parte um, parte três e parte quatro da grande entrevista de João Matos aos meios de comunicação do Sporting CP.